Variação · técnica da época
Panellada desconstruída à antiga
Carne e ovos, grão-de-bico amarelo e cebola dourada, cada um na sua panela, só com o que havia na época. No sábado, tudo vai para uma travessa, com pão e folhas crocantes de massa.
- 6 porções
- 3 h de preparo
- 20 h no forno
Você vai precisar
A carne
- 1 kg de carneiro ou vaca sem osso (paleta ou acém)
- 1 colher (sopa) de sal e 1 l de água fria, para desangrar
- 2 colheres (sopa) de azeite
- 1 cebola pequena, ralada
- 2 cm de gengibre fresco, ralado
- 6 ovos com casca, lavados
- 400–550 ml de água fervente
- 2 colheres (chá) de sal fino, em medida rasa (12 g)
O grão-de-bico amarelo
- 300 g de grão-de-bico seco (ou 650 g cozido, com 150 ml do líquido)
- 80 fios de açafrão verdadeiro, não cúrcuma
- 3 colheres (sopa) de azeite
- 1½ colher (chá) de sal fino
A cebola dourada
- 3 cebolas médias (600 g), em fatias finas
- 4 colheres (sopa) de azeite
- ½ colher (chá) de sal
Os adubos
- 1½ colher (chá) de pimenta-do-reino em grão
- 1½ colher (chá) de coentro em grão
- 1 colher (chá) de cominho em grão
- 2 cm de canela em pau e 2 cravos
- ½ colher (chá) de canela em pó e uma pitada de açafrão (uns 10 fios), para a mesa
A massa
- Para as folhas: 200 g de farinha de trigo, 1 colher (sopa) de azeite, ½ colher (chá) de sal e cerca de 100 ml de água
- Para a vedação: 250 g de farinha de trigo e cerca de 150 ml de água
Para a mesa
- 6 fatias de pão de trigo amanhecido, ou 6 beijus
- 40 g de castanhas-de-caju sem sal, ou amêndoas
- Um punhado de hortelã e coentro, só as folhas
- 2 limões-galegos ou sicilianos, em metades
- Juquiraí: 4 pimentas secas pequenas (cumari ou malagueta) e 1 colher (sopa) de sal grosso
- Folhas de laranjeira ou limoeiro, lavadas, de árvore sem agrotóxico, se tiver
Como fazer
- Quinta-feira, o grão-de-bico. Deixe os 300 g de grão-de-bico de molho em bastante água por 8–12 horas. Escorra, cubra com água nova e cozinhe em fogo baixo, sem sal, por 1–2 horas, até amassar fácil entre os dedos. Guarde na geladeira, no líquido do cozimento.O trabalho se divide assim: quinta, uns 45 minutos; sexta, umas 2 horas; sábado, meia hora.
- Quinta, as folhas crocantes. Misture a farinha das folhas, o azeite e o sal e junte a água aos poucos, até ter uma massa firme e lisa. Sove 3–4 minutos e deixe descansar 30 minutos, coberta. Com o forno a 220 °C, abra a massa bem fina, com 1 mm, corte discos de uns 12 cm e fure com um garfo. Asse em assadeiras sem untar por 4–7 minutos, até secarem, com pintas douradas.Sem forno quente: numa frigideira seca, 1–2 minutos de cada lado, como um beiju.
- O pão, as castanhas e o juquiraí. No forno ainda quente, torre o pão por 5–8 minutos. Numa frigideira seca, toste as castanhas por 4–5 minutos e pique grosso. Depois, com a janela aberta, toste as pimentas por 30–60 segundos e pise no pilão com o sal grosso. Quando tudo esfriar, guarde numa lata bem fechada; o juquiraí, num vidro.Castanhas já torradas: só 1 minuto. O juquiraí dura meses.
- Sexta, umas 3 horas antes do pôr do sol, a carne. Tire o sebo duro e as películas e corte a carne em pedaços de 3 cm. Deixe 30 minutos de molho no litro de água fria com a colher de sal. Escorra, passe por água limpa e seque bem com um pano.É uma versão curta do jeito antigo de desangrar a carne, e o gosto fica mais limpo. O jeito completo, com sal grosso, está na panellada rica.
- Enquanto a carne está de molho, os adubos. Toste a pimenta, o coentro, o cominho, a canela em pau e os cravos numa frigideira seca por 1–2 minutos e pise até virar um pó grosso. Peneire metade: o pó fino, cerca de 1 colher (chá), vai para um potinho com a canela em pó e a pitada de açafrão esfarelada. É o pó da mesa. O resto vai na carne.Cominho em pó? Junte depois de tostar o resto.
- O açafrão, a massa da vedação e o forno. Esfarele uns 60 fios de açafrão em 3 colheres (sopa) de água morna. Os outros 20, em 2 colheres (sopa) de água, ficam num copinho tampado, na geladeira, até sábado. Misture a farinha da vedação com a água até ter uma massa firme, que não grude nas mãos, e cubra. Ligue o forno a 110–120 °C.
- A carne dourada. Numa frigideira larga, aqueça as 2 colheres (sopa) de azeite em fogo alto e doure a carne em duas levas, 8–10 minutos ao todo. Ponha os ovos com casca no fundo de uma panela de barro de 2½–3 litros que vá ao forno e a carne por cima, com a cebola ralada, o gengibre, os adubos grossos e os 12 g de sal.
- Vede e leve ao forno já. Despeje 400 ml de água fervente na frigideira, raspe o fundo e jogue na panela. No começo o líquido chega a meia altura da carne, que solta caldo durante a noite; se não cobrir os ovos, complete com até 150 ml de água fervente. Enrole um cordão de massa da grossura de um dedo, aperte na borda, assente a tampa e pressione. Leve ao forno já.Salgue pouco: no sábado nada vai ao fogo, e o juquiraí acerta o sal à mesa.
- A cebola, à parte. Na mesma frigideira, seca com papel, aqueça as 4 colheres (sopa) de azeite em fogo baixo, junte a cebola e o sal, tampe e deixe abafar por 10 minutos. Destampe e cozinhe mais 15–20 minutos, mexendo de vez em quando, até ficar dourada, não castanha: ela escurece durante a noite. Passe a cebola com todo o seu azeite para uma panelinha de ½–¾ litro.
- Os grãos pisados. Enquanto a cebola cozinha, aqueça o grão-de-bico no seu líquido e escorra, guardando 150 ml. Separe 150 g de grãos inteiros e pise o resto no pilão, aos poucos, com a água de açafrão, o azeite, o sal e o líquido guardado, até ter uma pasta lisa e amarela, mais mole do que você quer: ela firma durante a noite. Junte os grãos inteiros e passe para uma panela de 1½ litro, untada.No processador, 1–2 minutos. Grão de lata, já salgado: só ½ colher (chá) de sal.
- Feche as outras duas e baixe o forno. Vede as duas panelas do mesmo jeito e leve ao forno, no máximo uns 45 minutos depois da carne: lado a lado ou em duas grades, a da carne embaixo. Baixe para 100–110 °C; para uma noite tão longa, 100 °C é melhor. Antes do pôr do sol tudo já está no forno, e fica até sábado ao meio-dia.Use um termômetro de forno: em temperatura baixa, o botão costuma errar. Sem panelas de barro? Tigelas e pratos que vão ao forno, vedados do mesmo jeito.
- Sábado ao meio-dia, abra as panelas. Tire as panelas do forno, quebre a massa com a ponta de uma faca e levante as tampas. Os cordões, duros e pálidos, vão para o lixo: a massa que se come são as folhas crocantes. Com uma escumadeira, passe a carne para uma tigela untada, aperte de leve e vire no centro de uma travessa grande. Tire os ovos do fundo da panela, descasque segurando com um pano e corte ao meio: a clara sai bege-castanha e a gema, macia.
- O caldo e a pasta. Incline a panela da carne, com um pano, e despeje o caldo devagar numa vasilha, deixando os pedacinhos: uns 500–600 ml. Espere 5 minutos e tire a gordura que subir. Numa jarra, bata 4 colheres (sopa) da pasta com uns 400 ml do caldo, juntando aos poucos. No resto da pasta, bata o caldo que sobrou e 1 colher (sopa) do azeite da cebola. Divida o açafrão guardado entre a jarra e a pasta: as duas ficam bem amarelas.A casquinha das bordas da pasta pode ir junto ou sair.
- Monte a travessa. Sobre as folhas de laranjeira, se tiver, ponha o pão de um lado e o grão-de-bico do outro. Espalhe a cebola sobre a carne com só 1–2 colheres (sopa) do seu azeite; o resto vai no grão e no pão. Ovos em volta, o pó da mesa, as ervas, as castanhas e algumas folhas crocantes. À mesa, despeje o caldo sobre o pão e quebre as outras folhas por cima. Ao lado, o resto do caldo em tigelas, os limões e o juquiraí num saleiro.Em pratos, como o alfitete da Infanta: as folhas crocantes embaixo, a carne e uma colher de caldo por cima.
A história por trás
“… nos dittos sabbados jantavão sempre huã iguaria que nunca comiam nos outros dias da semana, a qual iguaria era amarella, a qual deziam as dittas suas filhas mais moças que se fazia com grãos pisados, e a carne picada e adubos.”Joanna Fernandes, 1593 · Denunciações de Pernambuco, p. 31
A mesma testemunha conta que aos sábados Branca jantava (a refeição do meio-dia) mais cedo, no sobrado, com as filhas. Aqui as partes desse prato cozinham em panelas separadas. Preparar uma parte em separado também é gesto da época: em Lisboa, na casa de Inês Lopes, “afogavão primeiro a cebolla no azeite em huã tejella separada”, e só depois a cebola ia para a panela da carne (Denunciações, p. 387). Aqui ela fica à parte até a mesa. Os ovos que passam a noite na panela, até a clara escurecer, são os huevos haminados da adafina (Pérez Alonso, p. 454).
O jeito de montar vem das mesas da época. No Livro de Cozinha da Infanta D. Maria, a galinha cozida vai à mesa sobre fatias de pão, coberta com o caldo ligado com ovos, com ovos cozidos em volta e canela por cima. No alfitete, folhas finas de massa recebem a carne e o caldo, com canela e açúcar por cima (Lomba Vicente, p. 21). No livro todo, a canela e o açafrão são o “toque final” dos pratos (p. 46). Num prato judeu de al-Andalus, do século XIII, quebra-se a panela, vira-se tudo numa travessa e cobre-se de hortelã, pistácios, pinhões e especiarias. No mesmo livro, outros pratos vão à mesa sobre folhas de cidra.
O Brasil deu o resto. Em 1587, descrevendo a Bahia, Gabriel Soares de Sousa conta que as filhós de mandioca a que chamam beijus ficam “tão delgadas como filhós mouriscas, que se fazem de massa de trigo, mas ficam tão iguaes como obreas”, e se cozem até ficarem “muito seccas e torradas” (p. 189): é isso que a massa de trigo vira aqui. A castanha-de-caju “quer arremedar no sabor aos pinhões” (p. 206), e o juquiraí, pimenta seca pisada com sal, “entre os brancos se traz no saleiro” (p. 204).
Separar a panela em três, a cebola à parte até a mesa, a massa de trigo em folhas, o grão-de-bico no lugar dos ovos para ligar o caldo e as quantidades são escolhas nossas. Tudo cozinha na sexta; no sábado nada vai ao fogo: só se abre, se monta e se serve. Sobras: na geladeira em até 2 horas, ou em 1 hora se fizer mais de 32 °C; a cebola no azeite dura até 4 dias. Sem porco, sem banha. Fontes